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SEU PAÍS -
26/09/2005
MÃOS À OBRA PARA
CRESCER
INFRA-ESTRUTURA - De
olho nas exportações, as PPPs têm cinco projetos prioritários
POR MÁRCIA PINHEIRO
As Parcerias Público-Privadas (PPPs) já têm fôlego para sair do papel, com
evidente foco na exportação brasileira. As primeiras das listadas pelo governo
federal são obras destinadas a viabilizar o escoamento da produção de
commodities. Esse arranjo financeiro entre o Estado e os empresários é uma das
saídas para o País poder crescer, sem gargalos de infraestrutura, simplesmente
porque não há recursos suficientes para investimentos - o Orçamento para 2006
prevê apenas R$ 11,7 bilhões, distribuídos entre sete ministérios (tabela
Despesas Discricionárias). Esta é a realidade. Mas a PPP está longe de ser a
salvação da lavoura, porque os cinco projetos prioritários, a ser iniciados até
o próximo ano, são estimados em R$ 5,2 bilhões, muito pouco para um país tão
carente de soluções logísticas. A experiência das PPPs não é nenhuma
jabuticaba. O Brasil mirou-se, principalmente, no histórico das parcerias
realizadas no México, Irlanda, África do Sul, Chile, Portugal e Inglaterra,
segundo o economista-chefe da consultoria BDO Trevisan, Luiz Guilherme Piva. No
caso brasileiro, o esquema é particularmente relevante porque a capacidade de
endividamento interno e externo do País está perto da exaustão e aumentar a
carga tributária, definitivamente, é assunto fora de cogitação.
O advogado do diabo diria, com razão, que uma singela queda de 0,25 ponto
porcentual da Selic já significa R$ 1,30 bilhão de economia em juros pagos aos
detentores da dívida interna em um ano, segundo dados do próprio Tesouro
Nacional, recursos que poderiam ser usados em obras. Mas essa é uma lógica que
parece escapar aos formuladores da política monetária. A saída, ainda que um
pouco tardia, foi lançar mão dessas parcerias entre o capital privado e o
estatal. 0 ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo, disse
a CartaCapital que, dos 20 projetos arrolados para entrar na fila das PPPs,
cinco foram escolhidos como pioneiros por dois motivos (tabela As Parcerias
Público-Privadas Prioritárias). Primeiro, porque fortalecem o papel do País
como exportador, por serem corredores de transporte de mercadorias. Em segundo
lugar, são rodovias e ferrovias, obras de
execução mais simples, de fácil implementação, e, principalmente, passíveis de
ser cobradas pelo uso, quer por meio de pedágio, quer por frete.
Para este ano, Bernardo trabalha com o lançamento dos editais de duas obras: a
recuperação e a duplicação da BR-116 entre Feira de Santana (Bahia) e a divisa
com o estado de Minas Gerais, no valor de R$ 2 bilhões, e a construção de 409
quilômetros do trecho da Ferrovia Norte-Sul, entre as cidades de Babaçulândia e
Palmas (Tocantins), orçado em R$ 1,1 bilhão.
O mais recente passo para dar a partida nas PPPs aconteceu em meados de
setembro, quando o Comitê Gestor das PPPs - formado pelo Ministério do Planejamento,
da Fazenda e Casa Civil - aprovou o regulamento do Fundo Garantidor dessas
parcerias, um colchão de recursos a ser usado em caso de inadimplência da
União. São R$ 4,2 bilhões em ações da carteira do Tesouro Nacional, com alta
liquidez na Bolsa de Valores.
Mas Piva, da BDO Trevisan, alerta: se o Fundo Garantidor tiver algum saque,
futuras PPPs estarão condenadas ao fracasso. "É uma carta na manga que
precisa ser mostrada, mas nunca deve ser usada", explica, pelo histórico
que o País tem de planos econômicos e rompimentos unilaterais de contratos. Ou
seja, esse tópico da PPP não pode falhar, opinião compartilhada pelo ministro
Paulo Bernardo.
Piva também lembra que outra condição sine qua non para a parceria dar certo é
os juros reais caírem. "O investidor olha para o longo prazo e, com juro
real de 14% ao ano, há uma preferência por atrasar a opção pela economia
real", diz. Também nisso o ministro está de acordo. Com juro real tão
alto, diz Bernardo, a "tendência é o investidor comprar título público sem
aborrecimento nenhum". Mas ele pondera: "Nossa aposta, e também a dos
investidores, é de que a taxa real de juro vai cair para 6% no médio
prazo". Por esse prazo, entenda-se dez anos, estima o ministro, tempo de
maturação das primeiras PPPs.
Outra dificuldade é o desenvolvimento do mercado de capitais. Dificilmente o
investidor tira o dinheiro do bolso e entra diretamente no projeto. Prefere
usar recursos levantados na Bolsa de Valores. Nas PPPs, é preciso criar a
figura da Sociedade de Propósito Específico (SPE), que prevê o fluxo de caixa
futuro do investimento, ou seja, quando e quanto de dinheiro entrará no bolso
das empresas e do Estado. Essa SPE idealmente lançaria títulos de dívida em
Bolsa, por meio dos quais os investidores aplicariam no projeto. E, se
resolvessem sair antes da sua conclusão, haveria no mercado compradores
dispostos a assumir a responsabilidade. Nesse ponto, Bernardo aposta na ponta
contrária. Segundo ele, quando as PPPs deslancharem, deverão surgir instrumentos
em Bolsa para capitalizar potenciais investidores, formando um círculo
virtuoso.
Mas os obstáculos não param aí. O diretor da Pricewaterhouse Coopers, Paulo Dal
Fabbro, reconhece que o ótimo formato do Fundo Garantidor, com segurança de
administração responsável, já foi um passo importantíssimo. Contudo, ainda há
pendências relativas aos editais das PPPs. Somente após a análise desses
documentos será possível ao investidor avaliar se os riscos estão
compartilhados de maneira eqüitativa entre o Estado e a empresa e se os
retornos financeiros são realistas. Trocando em miúdos, a previsão de demanda
do uso de determinada ferrovia ou estrada tem mesmo chance de se concretizar?
Quem assumirá os riscos ambientais? Haverá complementação de tarifas, no caso
de baixa utilização do corredor de transporte?
Um ponto adicional destacado pelo consultor paira sobre a fiscalização da obra.
No caso das primeiras cinco PPPs listadas pelo governo, o natural seria a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) assumir essa
responsabilidade e apontar eventuais desvios de desempenho da empreitada em
curso. Contudo, Dal Fabbro questiona se a ANTT estaria
preparada para esse desafio. Lembre-se que seu orçamento liberado este ano até
agora somou meros R$ 100 milhões, ante uma previsão da R$ 220 milhões feita
pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Por fim, Dal Fabbro considera
otimismo demais pensar que os primeiros editais sairão até dezembro. "O
vôo de cruzeiro (das PPPs) tem mais chance de ser alcançado em 2006",
afirma.
As parcerias realizadas em outros países são exemplos fartos de casos de
sucesso e insucesso. Conforme relatam os economistas Barbara de Brito e Antonio
Silveira, na Revista do Servidor Público (março de 2005), em Portugal houve a
pior modelagem possível para as rodovias construídas
no âmbito das PPPs. O país adotou o conceito de shadow tolls (pedágios-sombra),
um sistema não pedagiado, no qual o Estado se comprometeu a remunerar
integralmente seu parceiro privado pelo tráfego. O resultado foi desastroso.
Neste ano, tais contratos vão resultar em um custo de 500 milhões de euros para
o governo português, nada menos que o orçamento total do Instituto de Estradas
de Portugal (IEP). Naturalmente, está em curso um complicado processo de
renegociação com os parceiros privados e a sociedade, para que haja a cobrança
de pedágio.
De outro lado, em tempos de ainda farta liquidez internacional, há otimismo em
Brasí lia. Os investidores estrangeiros são cobiçados pelo governo brasileiro,
principalmente os chineses, portugueses e italianos, que já manifestaram
interesse em investir nas obras brasileiras. O presidente da Câmara de Comércio
e Indústria Brasil-China, Charles Tang, é claro ao falar das intenções das
companhias de seu país. "Todo projeto que contribua para atender à necessidade
de crescimento e de provisão de alimentos interessa a nós", afirma.
Segundo ele, portos, pequenas ferrovias de acesso
marítimo para o transporte de soja e álcool, por exempo, já estão atraindo a
atenção dos empresários chineses.
Tang afirmou que estes estão de olhos bem abertos para as oportunidades no
Brasil, desde que rentáveis, e lembrou que, quando o presidente da China, Hu
Jintao, visitou o País em novembro de 2004, veio acompanhado de uma caravana de
empresários, entre eles a China International Trust and Investment Corporation
(CTIC). Esta tem em caixa US$ 80 bilhões para investir mundo afora e, espera-se
que alguma parcela dessa fortu na seja usada nas PPPs brasileiras - ao menos
US$ 3 bilhões, segundo especula o mercado.
Além da CTIC, estão atentos às PPPs a China Overseas Group Corporation e a
China Civil Engineering Construction Corporation. Esta última já abriu um
escritório em São Paulo. Segundo seu represen tante, Xian Xiang Li, dos
projetos prioritários das PPPs, o que mais interessa à sua empresa é a Ferrovia Norte-Sul, mas "tudo vai depender do preço e
das perspectivas de lucro", enfatiza.
Por enquanto, o Brasil só está se arriscando em parcerias que dêem retorno
financeiro via pedágio ou frete. Mas há um segundo tipo, chamado concessão
administrativa, no qual a concessionária presta um serviço diretamente ao
Estado, cabendo a este arcar com 100% dos custos. As PPPs são o modelo mais
adequado, pela rigidez de cumprimento de metas e prazos. Seria o caso da
construção de hospitais públicos, penitenciárias ou obras de saneamento, cujos
valores superem R$ 20 milhões. Feita a obra, a administração passaria às mãos
do governo. Mas isso também está no horizonte do Ministério do Planejamento.
Segundo Bernardo, "se provocados, como fomos pela Associação Brasileira da
Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), é possível fazer uma concessão
para redes coletoras de esgoto, estações de tratamento ou irrigação",
afirma.
Tal provocação é confirmada pelo vicepresidente-executivo da Abdib, Ralph Lima
Terra. "Irrigação, transporte, saneamento, energia, tudo isso o País
precisa e gera empregos", diz o executivo. Mas, particularmente no setor
de saneamento, ainda existe um impeditivo: não há um marco regulatório definido
que dê segurança aos investidores. Será preciso esperar que o projeto enviado
pelo Executivo ao Congresso - por ora, está no âmbito das comissões da Câmara -
seja aprovado e transformado em lei. `As possibilidades de PPPs são muitas e
variadas, porque a União não tem recursos para tantas necessidades de
infra-estrutura do País", diz Lima Terra.
Planos, portanto, existem. Carências também. A questão é o Brasil "correr
atrás do prejuízo" e suprir suas deficiências ainda primárias de
investimento a tempo de poder crescer a taxas mais decentes do que 3% ou 4% do
seu Produto Interno Bruto.
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NEGÓCIOS -
26/09/2005
Dinheiro de trem ou de
navio
As indústrias estão
deixando as estradas para aproveitar as vantagens dos novos meios de transporte
Malu Gaspar e Alexa
Salomão
Rodovias, no Brasil, sempre foram vistas como sinónimo de
progresso. Ao longo da história, a expansão da indústria nacional dependeu das
estradas, e a fronteira do mercado consumidor foi desenhada pelo alcance dos
caminhões. Enquanto governo após governo teimava em estender o asfalto. o
transporte naval e o ferroviário enfrentaram uma sucessão de crises e nunca
chegaram a ter a relevância que têm em outros países. Graças à privatização das
ferrovias. porém. essa situação começou a mudar. A produção
industrial brasileira tem viajado cada vez mais de trem e de navio. De 2000 a
2004, o volume de carga sobre trilhos cresceu 22%. No mesmo período, os
contêineres embarcados nos navios quase dobraram. Já a atividade dos caminhões.
embora bem maior, praticamente não cresceu. Pelas novas vias de transporte.
começam a circular não apenas mercadorias agrícolas ou minérios. mas
manufaturados que nunca haviam viajado sobre os trilhos ou sobre as águas.
Produtos bem mais caros e com muito mais conteúdo tecnológico - de autopeças e
plásticos a frango congelado ou leite condensado.
O renascimento vivido hoje rio setor de transportes é similar ao que conheceu o
das telecomunicações após a privatização. Há uma onda de investimentos e uma
revolução em curso. protagonizada pelas empresas de logística e transporte de
cargas. mas que se estende a todo o setor produtivo. A Amsted Maxion, maior
fabricante de vagões e produtos para ferrovias do país,
reverteu a situação desoladora que vivia até o início da década de 90.
"Naquela época,
só nos encomendavam peças de reposição", diz Vicente Abate, diretor de
marketing e vendas da empresa. "Agora, vamos fechar 2005 com 7 500 vagões
entregues". OS estaleiros, que há dez anos estavam às moscas. passam por
uma situação parecida, embora de evolução mais lenta. "Eles voltaram a
produzir para o setor privado. A demanda é crescente e há várias
encornendas", diz Carlos Filipe Rizzo, executivo da Keppel Fels, de
Cingapura. um dos maiores estaleiros instalados no Brasil.
A idéia de que uma parte maior da produção nacional viaje de trem ou de navio
parece lógica se compararmos o Brasil a
outros países de dimensões continentais. Na Rússia. 819c do transporte de carga
é feito por ferrovia. Na índia, 50%. Nos Estados Unidos. 43%. Até o final da
década de 90. porém, uma mudança de cenário era impensável. "O governo
apostou tudo em rodovias e abandonou as outras alternativas". diz
Flávio Benatti, presidente da seção de cargas da Confederação Nacional do
Transporte. "Agora. está havendo um reequilíbrio. " De acordo com
dados da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF). a
participação do trem no transporte de cargas aumentou de 19% para 24% desde
2003. A entidade estima que, de 1996 até o final deste ano, as concessionárias
terão injetado cerca de 7 bilhões de reais nas ferrovias. A melhoria do sistema já permitiu aos donos das ferrovias transformar suas empresas em operadores logísticos
e passar a explorar as cargas industriais. A Vale Logística, braço da Companhia
Vale do Rio Doce, se concentra na indústria desde sua criação, em 2000. Com 2
000 clientes, foi responsável por 10% do lucro do grupo, de 2,5 bilhões de
dólares. A MRS. maior transportadora de contêineres do Brasil, lucrou 222
milhões de reais em 2004.
A própria indústria começou a trabalhar em parceria com as empresas de
logística. Nos contratos firmados desde o ano passado pela América Latina
Logística (ALL). os próprios clientes começaram a comprar e a reformar vagões.
Entre as empresas que aderiram a esse tipo de sistema estão a Sadia - que
transporta frango congelado em contêineres refrigerados - e a Bunge, que investiu
em vagões graneleiros. "A indústria brasileira agora pensa o transporte
ferroviário no longo prazo e não apenas como opção transitória". diz
Alexandre Oliveira. diretor do Centro Brasileiro de Aperfeiçoamento Logístico
(Cebralog). A primeira vantagem está no bolso. As empresas de logística
calculam reduzir o custo em até 40% com ferrovias e
navios. Para a Basf - que investiu 2 milhões de dólares para construir um ramal
ferroviário de sua fábrica em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. à linha
da MRS que desemboca no
Porto de Santos - a mudança gerou
economia de 15%. Hoje, quase toda a exportação da unidade segue para o porto
pelos trilhos. A gaúcha Camil queria vender arroz no mercado nordestino. mas o
preço do frete rodoviário inviabilizava o negócio. Com a navegação de
cabotagem, o custo caiu 20%. Hoje, mais de 2 000 toneladas de arroz vão de caminhão
de Camacuã para Porto Alegre e, de lá, embarcam para os portos nordestinos, numa operação montada pela Vale
Logística. Em três anos, o mercado nordestino passou a representar 17% do
negócio da Carnil. "Não conseguiríamos isso sem a cabotagem". diz Jaime
Ghisi Filho, diretor de logística da empresa.
A fábrica da Ford, em Camaçari, na Bahia. economiza 1 miIhão de reais por mês
com o transporte de mais de 150 000 peça- partes da lataria. motores e ro das -
nos trens da Ferrovia Centro Atlântica, A principal vantagem nem foi o
corte de 5% nos custos, "Conseguimos a segurança de ter o material na
hora, sem assaltos ou acidentes". diz Edson Molina, diretor de logística
da Ford, Para a Basf, pesou a diminuição dos problemas ambientais, obtida graças
à maior segurança. Cerca de 6 000 caminhões deixaram de circular todo ano pela
Via Dutra, "Desde que mudamos para a ferrovia, não tivemos um só
acidente", diz Odilon Em, diretor do complexo químico da Basf em
Guaratinguetá. Para a Braskem, o importante foi ganhar competitividade. A
empresa traz para São Paulo as resinas termoplásticas produzidas em Camaçari.
"O que vale para nós é o estoque móvel e estar perto do cliente", diz
Isabel Bernardo Figueiredo, diretora de logística e suprimentos da Braskem.
Na conquista dos clientes, as concessionárias deram duro, "A ferrovia não
tinha credibilidade", diz Sérgio Pedreiro, diretor financeiro da ALL.
"Precisamos provar que éramos capares de cumprir horários e manter
serviços regulares.- A ALL aceitou fazer projetos experimentais antes de fechar
acordos definitivos, Para dirimir a cisma dos clientes, a MRS chegou a incluir
nos contratos cláusulas garantindo que pagaria pela entrega da carga por
caminhão caso ocorresse algum problema, "Até hoje não tive de fazer
isso", diz Valter Luiz Souza, diretor comercial da MRS. No futuro, um
passo natural na expansão pode incluir o transporte de passageiros, como
ocorreu na Europa, A Companhia Ferroviária do Nordeste já anunciou uma linha
entre Piauí, Ceará e Pernambuco.
Apesar de todos os benefícios, os especialistas não recomendam às empresas
retirar toda a carga dos caminhões, "As ferrovias são
monopólios naturais - só há um operador por região", diz Hugo Yoshizaki,
especialista em logística da Universidade de São Paulo. "Quem coloca toda
a produção nos trilhos pode virar retém da concessionária." O ideal, diz
ele, é montar operações logísticas com diferentes meios de transporte, como fez
a indústria de leite gaúcha Elegê, do grupo Avipal. Quase 30% da produção de
Teutônia, no Rio Grande do Sul, chega aos clientes por meio da ferrovia ou pela
cabotagem, A ALL montou uma operação de logística para a Elegê. Recolhe o leite
na porta da fábrica, leva de caminhão até Estrela, também no Rio Grande do Sul,
De lá, embarca a carga no trem para o centro de distribuição de Tatuí, em São
Paulo, Três ou quatro dias depois. o produto chega aos clientes, Nos trilhos. a
economia é de 13% em relação à rodovia. No mar, de ?3%. Mas o grupo nem pensa
em abandonar a estrada, "Não temos a intenção de concentrar o
transporte", diz Gilberto Halpern, gerente de logística da Avipal. "O
importante c saber r aproveitar várias opções."
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POLÍTICA -
26/09/2005
Eleição/2006
Alfredo quer mesmo é o
governo
O ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento
(PL-foto), disse ontem em entrevista ao Em Tempo, que sua intenção é disputar o
governo do Estado e, por isso, não muda seus planos após o anúncio da filiação
do governador Eduardo Braga ao PMDB do senador Gilberto Mestrinho, que é
candidato à reeleição.
O ministro disse que quer concorrer ao governo, porque tem experiência no poder
Executivo. “Fui prefeito de Manaus por quatro anos. Fui reeleito. Governei mais
três anos de forma tranqüila sem nunca passar por nenhum escândalo. Só saí
porque aceitei o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para
assumir o Ministério
dos Transportes”, contou.
Alfredo disse que espera somente o momento certo para conversar com o partido.
O ministro acredita não só que tenha espaço para concorrer nas próximas
eleições contra o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB), o governador Eduardo
Braga, Amazonino Mendes (PFL), mas que tem grandes possibilidades de ganhar a
eleição. ”Estou ciente de que realizei um bom trabalho na Prefeitura de Manaus
e que o meu compromisso com o povo amazonense respalda a minha candidatura ao
governo”, declarou Alfredo.
Além do apoio que espera, Alfredo conta também com uma corrente favorável à sua
candidatura dentro do Partido Liberal. “Tenho uma base forte em Manaus. Já
conversei com alguns amigos que me apóiam para o governo, como é o caso dos
deputados estaduais Evilázio Nascimento e Sabá Reis”.
Alfredo, porém, não descarta a possibilidade de se lançar candidato ao Senado,
mas se isso acontecer ainda não sabe a quem apoiará para o governo do Estado.
“Ainda é muito cedo para falar sobre isso. Muita coisa ainda vai acontecer
daqui para as convenções e não posso responder pelo PL, porque muita coisa
ainda será conversada”, disse.
Com pé atrás
Alfredo Nascimento diz que já foi procurado pelo governador Eduardo
Braga, que propôs aliança a possível candidatura a senador, mas garante que não
acertou nada com Braga. “Essas alianças devem ser bem pensadas. Sou calejado na
política e tenho sempre um pé atrás com todos que me procuram no final do prazo
das filiações, porque podem ser acordos oportunistas. Mas nunca contei com essa
aliança com o Eduardo Braga, até porque minha intenção é sair para governo
estadual”, reafirmou.
Segundo fontes do Em Tempo, o governador Eduardo Braga teria fechado aliança
com o senador Gilberto Mestrinho para apoiá-lo na reeleição. Este acordo seria
concretizado com o ingresso de Braga no PMDB, o que deve acontecer nesta
terça-feira (27) em Brasília.
Ademar Vieira
(Especial para o Em Tempo)
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LOCAL -
26/09/2005
Bahia tem piores
estradas do País
Falta de sinalização,
acostamento e pavimentação precária são os problemas mais freqüentes nas
rodovias do Estado
ADILSON FONSÊCA
Em 20 de janeiro de 2004, o Departamento Nacional de Infra-Estrutura e
Transportes (Dnit – antigo DNER) emitiu um
comunicado público em que informava aos baianos a interdição de um trecho da
BR-110 (Salvador/Paulo Afonso), no Km-318, por causa da queda de uma ponte
sobre o Rio Subaúma. A rodovia é considerada pela Confederação Nacional dos
Transporte (CNT), entidade que reúne empresários do ramo de cargas e
transportes rodoviários de todo o País, uma das três piores estradas federais
no Brasil.
Um ano e nove meses depois do acidente, a BR-110 continua interditada sem que
nenhuma obra tenha sido realizada até agora no local. Ocupando a 105ª colocação
dentre as 107 rodovias pesquisadas pela CNT este ano, a BR-110 tem 275
dos 375 quilômetros que possui em situação precária. Faltam sinalizações,
acostamento e, principalmente, recapeamento em diversos trechos, colocando em
risco a vida dos motoristas e inviabilizando a ligação rodoviária para diversos
municípios da região norte do Estado.
“Trafegar por aqui só por falta de opções”, disse o caminhoneiro Eliezer Bispo
do Nascimento, 49 anos, transportando uma carga de farelo de soja da cidade de
Barreiras, no oeste do Estado, para o município de Coronel João Sá, próximo à
fronteira com Sergipe. Com a rodovia sem condições de tráfego, cidades como
Ribeira do Pombal, Cícero Dantas, Jeremoabo e Paulo Afonso ficaram praticamente
isoladas por terra do resto do Estado. “A gente só chega nesses locais depois
de muitos riscos”, completou outro caminhoneiro, Juvenal Cerqueira Martins.
Nos primeiros cinco quilômetros da BR-110, que começa a partir do entroncamento
com a BR-324 até a cidade de São Sebastião do Passé, duas barreiras caídas e
uma ponte parcialmente interditada indicam aos motoristas que a viagem até
Paulo Afonso, a 435 quilômetros de Salvador, será cheia de perigos. O trecho
considerado bom da rodovia tem menos de 50 quilômetros, entre o entroncamento
com a BR-101 (Alagoinhas) e no trecho entre as cidades de Inhambupe e Sátiro
Dias.
Num dos trechos destruídos, próximo ao povoado de Nova Minação, o corretor de
imóveis Paulo Fernandes de Barros, 53 anos, teve o carro (Uno – JFA-9282)
atingido por um caminhão (JLA-2764) que tentava se desviar dos buracos. O
corretor vinha de Olindina em direção a Alagoinhas. Ao diminuir a velocidade
por causa dos buracos, teve o veículo atingido na traseira e arremessado a
quase 50 metros do acostamento. “Escapei por milagre”, disse.
No boletim do Dnit que avalia as condições das rodovias brasileiras, datado de 17 de agosto deste ano, o
órgão adverte que um trecho de 172 quilômetros, entre Paulo Afonso e Ribeira do
Pombal, é considerado “precaríssimo em todo o segmento”. Ainda segundo o Dnit, praticamente não existem trechos bons em toda a rodovia e por isso
mesmo a recomendação é de alerta máximo para quem viaja de carro na região.
De Salvador a Paulo Afonso, 12 horas
Uma viagem de Salvador até Paulo Afonso (435 quilômetros), que normalmente era
feita em, no máximo, oito horas, dura meio dia. “Não é uma viagem segura, pois,
além dos buracos, corremos riscos constantes de assaltos, principalmente à
noite”, desabafou o motorista da empresa Regional Manoel Walter de Jesus, 38
anos, fazendo a linha Ribeira do Pombal/Salvador. São 256 quilômetros até
Salvador, feitos em pouco mais de seis horas.
Para quem sai de Salvador em direção ao norte do Estado, existem poucas opções
de tráfego. Desde a interdição da BR-110 na altura do povoado de Riacho da
Guia, entre os municípios de Inhambupe e Sátiro Dias, em 2004, as rodovias utilizadas como alternativas também não oferecem
condições seguras de tráfego. Para quem se dirige ao norte do Estado, existem
as seguintes alternativas:
Sentido norte/sul – Proveniente de Paulo Afonso: entrar em Ribeira do Pombal e
percorrer os 35 quilômetros da BR-410 até Tucano na BR-116.
Sentido sul/norte – Utilizar as rodovias BA-233 e
BA-084 Serrinha/Nova Soure.
Em ambos os casos, o percurso é diminuído em cerca de 80 quilômetros, mas os
motoristas enfrentam diversos problemas, como buracos e falta de sinalização. O
presidente da Abemtro (Associação das Empresas de Transportes de Passageiros),
Lucas Ribeiro, disse que a situação das estradas da região é das piores. A
empresa Regional, que faz a linha para Paulo Afonso e Ribeira do Pombal, por
conta dos buracos, por exemplo, reduziu itinerários nos municípios de
Cristópolis e Antas, como forma de manter os horários até Salvador.
Linha Verde está entre as melhores
Numa pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), este ano,
foram analisados 81.944 quilômetros de 107 rodovias
federais brasileiras. As cinco melhores rodovias
estão localizadas no interior de São Paulo. Já dentre as cinco piores, duas
delas – Teresina (PI)/Barreiras (BR-135) e Salvador/Paulo Afonso (BR-110) –
estão na penúltima e antepenúltima colocações, respectivamente.
Em todo o Estado, dentre as rodovias
pesquisadas, a que alcançou a melhor colocação foi a BA-099 (Estrada do
Coco/Linha Verde), que ficou na 28ª posição. A BA-099 é uma estrada estadual e
liga o litoral norte de Salvador a Estância, no Estado de Sergipe, onde
encontra a BR-101. Possui 232 quilômetros, dos quais 76 são duplicados e
privatizados.
Obras de recuperação são mistério
UMBERTO DE CAMPOS
BRASÍLIA (DA SUCURSAL) – Cinco rodovias federais
que passam pelo Estado da Bahia estão entre as dez piores do País, conforme
pesquisa da CNT, a Confederação Nacional dos Transportes.
Em Brasília, no entanto, existem poucas informações sobre os planos do governo
para resolver a situação dessas estradas. A reportagem de A TARDE procurou a
assessoria do Dnit – Departamento Nacional de Infra-estrutura de
Transportes. Ninguém no órgão se dispôs a falar.
O conselho que a equipe de reportagem recebeu foi procurar o site do
departamento na internet. Lá, diz apenas que o “Dnit prevê melhorias mais significativas na malha rodoviária federal até o
final de 2006”. E que “a expectativa fundamenta-se nos resultados dos
investimentos que o órgão realiza ao longo de 2005, cuja maior parte das obras
ainda está em andamento.
O volume de recursos garantidos permitirá a recuperação e a ampliação da malha
neste período, dando um novo cenário à infra-estrutura terrestre brasileira”.
Ou seja, só há generalidades e nenhuma informação concreta.
Para o Dnit, são aproximadamente 57 mil km de rodovias federais pavimentadas no País. Destes, 4,5 mil km
estão sob os cuidados da iniciativa privada (por concessão) e 14 mil km foram
transferidos a 15 Estados, através da Medida Provisória nº 82/02, com
antecipação de recursos (R$ 130 mil por km). Portanto, a malha sob a
responsabilidade do Dnit atualmente é de 38 mil quilômetros.
Seguindo os padrões internacionais, o Dnit avalia que
16,1% das rodovias federais estão em bom estado de conservação; 36,2%
estão em estado regular e 47,8% em mau estado.
Vale frisar que, na última década, os recursos liberados para investimentos em
obras de manutenção, restauração e adequação da infra-estrutura de transportes
terrestres foram inferiores às necessidades do setor
Isso, ao longo dos anos, contribuiu para o agravamento da malha rodoviária,
aliado a outros fatores, como o constante aumento do volume de fluxo de
veículos e de cargas transportadas.
Pesquisa – Sobre a pesquisa da CNT, o Dnit registra que o
trabalho contribui para os governos (estaduais e federal) na hora de definir
prioridades para o setor. Mas ressalta que as metodologias de cada instituição
são distintas. Resumidamente, enquanto a CNT faz um levantamento de ligações
rodoviárias de 10 em 10 quilômetros e divulga apenas o resultado dessas
ligações, o Dnit faz a compilação de dados de forma contínua, ou
seja, de quilômetro em quilômetro.
Outro aspecto de relevância é que o Dnit dirige sua
avaliação especificamente para as condições do pavimento, que, além de ter
finalidade de saber as condições dele, tem como objetivo obter dados para
definição do tipo e o valor das intervenções necessárias.
A CNT faz o levantamento das características do pavimento, da infra-estrutura
de apoio, incluindo quebra-molas, policiamento, postos de abastecimento, entre
outros equipamentos, visando ao conforto total do usuário.
Portanto, os números apresentados na pesquisa diferem dos reconhecidos pelo Dnit. O governo federal, conforme o site do Dnit, empenhou, no Orçamento deste ano, R$ 4,4 bilhões para melhorias em rodovias de todo o País.
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GERAL -
26/09/2005
Dnit-RS analisa dados da CNT
O coordenador regional do Dnit-RS, Marcos Ledermann, afirmou ontem que as estradas federais gaúchas
analisadas pela pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) passaram
a sofrer desgaste a partir de abril, quando os trabalhos de recuperação foram
paralisados pelo Dnit nacional, atendendo à Medida Provisória (MP) 82. A
MP, datada de dezembro de 2002, previa o repasse de 2 mil quilômetros da malha
federal gaúcha para o Estado, entre 2003 e 2006. No entanto, disse, o governo
gaúcho nunca as assumiu oficialmente, alegando que elas foram entregues ainda
na administração anterior.
A competência dessas estradas segue gerando polêmica entre União e Estado.
Ledermann lembrou que a decisão de manter as rodovias sob
responsabilidade do governo estadual foi expressada recentemente pelo presidente
Lula. 'O presidente disse que alguns governadores querem que a União conserve
as rodovias estadualizadas, mas, para tanto, é preciso que
devolvam os recursos repassados aos estados - no caso do RS, R$ 258 milhões -
para que a União possa reassumi-las.' A CNT classificou como deficientes as BRs
153, 158, 287 e 293.
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GERAL -
26/09/2005
BR 101: União vai indenizar mais 32
O Dnit-RS deverá indenizar, ainda essa semana, mais 32 proprietários de
áreas a serem desapropriadas para as obras de duplicação da BR 101 no trecho
gaúcho. Segundo o coordenador regional do Dnit-RS,
Marcos Ledermann, essas indenizações deverão custar cerca de R$ 2,1 milhões aos
cofres públicos e, até o final do ano, a expectativa é estar efetivando entre
200 e 250 desapropriações. No início do ano, o governo federal liberou R$ 2,4
milhões para o pagamento das primeiras indenizações no RS e a expectativa é que
sejam liberados mais R$ 2,5 milhões ainda em 2005. Até agora, 30 donos de áreas
foram ressarcidos pela União. Sobre o cronograma das obras, Ledermann reafirmou
que pretende inaugurar, em março de 2006, vários trechos com asfalto. O RS deve
receber R$ 156 milhões para o empreendimento este ano.
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ANA AMÉLIA
LEMOS - 26/09/2005
Estradas
Em caráter emergencial, o Dnit liberou recursos para a reconstrução de ponte sobre o Rio Barreio, na
BR-470, que representa risco para todos os veículos, especialmente do
transporte escolar.
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ECONOMIA -
26/09/2005
Bater na política
econômica é chutar o pé
Entrevista Paulo Bernardo
- Ministro do Planejamento
CAROLINA BAHIA/ AGÊNCIA
RBS/BRASÍLIA
Embretado entre o orçamento curto e a necessidade de destravar investimentos em
infra-estrutura, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, não hesita em
expor problemas do governo. Fiel à política econômica, e otimista por natureza,
esse paulista de 53 anos atribui a falhas de gestão o atraso na liberação de
dinheiro para obras importantes. A tarefa, agora, é entrar no ano eleitoral em
ritmo acelerado. Até as promessas já têm clima de campanha pela reeleição do
presidente Lula: -Vamos terminar a duplicação da BR-101 ainda neste governo -
arrisca. Assim como o padrinho, o ministro Antonio Palocci, Bernardo foi
trotskista na juventude. Por conta da militância, foi expulso da Universidade
de Brasília (UnB) e jamais concluiu o curso de Geologia. Deputado federal
eleito pelo PT do Paraná, é hoje um dos petistas mais moderados da Esplanada.
Pai de quatro filhos, o ministro mantém a casa em Curitiba (PR), para onde vai
nos finais de semana. Para se distrair da tensão do cargo de coordenador do
orçamento, assiste a filmes em DVD com a família. O último, do qual não gostou,
foi o épico Tróia. Desagradou ao ministro ver o mitológico herói Aquiles
transformado no que ele classificou de um mercenário. Na última quinta-feira,
ainda sob a pressão dos vetos na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO),
Bernardo recebeu a Agência RBS para a seguinte entrevista. Ontem, o ministro
voltou a falar com ZH sobre denúncia publicada na revista IstoÉ desta semana.
Agência RBS - A revista IstoÉ desta semana traz reportagem na qual a assessora
financeira do PT em Londrina (PR), Soraya Garcia, acusa o senhor de abastecer o
caixa 2 do partido na cidade.
Paulo Bernardo -Tenho de rir disso, as pessoas mencionam um ministro porque
acreditam que isso rende reportagens. A história é absurda. Não conheço essa
mulher, nunca falei com ela na vida, nem por telefone. O que ela diz são
ilações, mentiras, versões fantasiosas que não têm procedência nenhuma.
Agência RBS - O senhor começa a semana enfrentando o descontentamento dos
governadores com o veto à Lei Kandir na LDO. Houve quebra de acordo? O
governador Germano Rigotto está reclamando.
Bernardo - Rigotto é meu amigo, mas é um reclamão. Não houve quebra de acordo.
A questão precisa ser regulamentada, com previsão de valores e discussão com o
Congresso e os governadores. O que foi vetada é a obrigação de colocar na
proposta orçamentária.
Agência RBS - Já está no Congresso o que pode ser o último orçamento do governo
Lula. O que é prioridade para 2006?
Bernardo - Trabalhamos com pé no chão. Com um quadro de inflação controlada, de
4,5% para o ano que vem, previsão de queda de juros e política fiscal austera,
além de superávit primário previsto de 4,25%. O programa na área social está
mais abrangente. O Bolsa Família vai ter como meta atingir 11,2 milhões de
famílias. Na educação, temos focos na manutenção das universidades públicas,
expansão do ensino e melhoria da merenda.
Agência RBS - Como o senhor explica ao cidadão onerado por altos impostos que o
orçamento continua com limitações para estradas, saúde e educação?
Bernardo - O orçamento e as despesas públicas carregam a herança dos últimos 30
anos. O Brasil é um país que tem uma dívida pública de R$ 1 trilhão. De 1995 a
2002, se multiplicou a dívida, saindo de 30% para 60% do PIB.
Agência RBS - É isso que compromete o crescimento?
Bernardo - Os resultados da política econômica estão aí para quem quiser ver,
com crescimento econômico na faixa de 4% neste ano. Conseguimos reunir
condições que garantem para o próximo período crescimento econômico
sustentável.
Agência RBS - O governo Lula chega ao seu último ano sem fazer grandes
investimentos em infra-estrutura.
Bernardo - Com o endividamento e a estrutura de despesas que temos, há muita
dificuldade de fazer investimento. Uma parte tem que ser delegada para a
iniciativa privada. Temos 17 projetos de hidrelétrica que vão deslanchar via
concessão. Temos de melhorar as rodovias.
Agência RBS - Uma das promessas era concluir a duplicação da BR-101 Sul. Vai
ser cumprida?
Bernardo - Os recursos estão no orçamento deste ano e já estão garantidos para
2006.
Agência RBS - A BR-101 será concluída neste governo ainda, no próximo ano?
Bernardo - Claro, até Osório. Nós vamos terminar essa obra.
Agência RBS - Mesmo assim, tanto no Rio Grande do Sul quanto em Santa Catarina,
obras em estradas e
portos estão paralisadas por falta
de dinheiro. Por que o recurso não chega?
Bernardo - Os investimentos andaram mais lentamente do que o planejado. Vamos
montar uma sala de situação especial para a área de transporte, especialmente rodovias. Queremos agilizar os processos trabalhando com
representantes dos Transportes, Planejamento, Casa Civil e Fazenda. Vão
acompanhar e monitorar todos os projetos principais, como a BR-101.
Agência RBS - A culpa da demora nos investimentos não é do contingenciamento
dos recursos?
Bernardo - Tem uma parte dos problemas que pode ser atribuída ao
contingenciamento e à escassez de recursos. Os ministérios têm de usar os
recursos mais rapidamente.
Agência RBS -Não é tarde?
Bernardo - Por que tarde? Temos um problema no Dnit (Departamento
Nacional de Infra-Estrutura de Transportes). É quase unânime a avaliação de que o órgão não funciona. Agora foi
aprovada uma lei reformulando toda a estrutura. Em outubro, pretendemos soltar
um concurso para técnicos.
Agência RBS - Uma aposta do governo para infra-estrutura eram as Parcerias
Público-Privadas. Por que não deu certo?
Bernardo - Não é que não deu certo. As PPPs vão amadurecer e se consolidar
dentro de cinco, seis anos. O que consideramos tarefa deste governo é terminar
o arcabouço jurídico e fazer as primeiras parcerias. Selecionamos, nos projetos
do Plano Plurianual, alguns que consideramos modelo. No máximo em janeiro vamos
licitar os primeiros.
Agência RBS - Apesar da sua defesa da política econômica, há petistas
históricos que criticam os rumos da economia.
Bernardo - A nota da executiva nacional do PT diz que temos de mudar o modelo,
que vamos fazer outra política econômica para o caso de o presidente ser
candidato. Como? O presidente Lula vai ser candidato de oposição a ele mesmo? O
PT só tem uma saída, além de resolver os problemas, as irregularidades que
foram cometidas: fazer campanha defendendo as conquistas do governo. Bater na
política econômica é chutar o pé de apoio.
Agência RBS - O senhor deixou o Congresso meses antes de estourar esses
escândalos. O seu santo é forte.
Bernardo - É. Cometemos uma série de erros na nossa articulação política. Mas
boa parte do que está acontecendo revela um ódio muito grande contra o PT. Há
muito de exagero, muito de denuncismo.
Agência RBS - Como o escândalo afeta o trabalho do governo?
Bernardo - O governo está funcionando normalmente. O problema é que a mídia é
atraída pelas denúncias. Estamos trabalhando com a preocupação de reduzir a
carga tributária. Queremos continuar o trabalho de desoneração da cesta básica,
atingir derivados do trigo. Discutimos a possibilidade desoneração de uma cesta
de produtos da construção para o consumidor e da indústria de softwares. Até o
final do ano o governo vai produzir algumas medidas de desoneração.