A GAZETA - MT

CIDADES
24/09/2006

 

Em 2 meses, acidentes aumentam 34%

São apenas 220 km entre a Capital e Cáceres, mas as condições precárias da rodovia fazem motoristas levarem até 4 horas para concluir o percurso

 

Rose Domingues
Da Redação
Nos últimos 8 meses, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou na rodovia BR-070, num trecho de 220 km (Cuiabá a Cáceres), 181 acidentes, com 97 feridos e 11 óbitos. Em 2 meses, os números de colisões, saídas de pista e capotamentos aumentaram em 34% matando 2 pessoas. Um dos locais considerados mais críticos é entre o posto da PRF, no km 120, e a Serra do Mangaval. Com uma extensão pequena de 50 km, contabiliza hoje o maior número de vítimas.

Um regador caseiro, botas e pás. São os instrumentos utilizados pelo
Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) para amenizar a caótica situação da BR-070 no acesso à região de Cáceres, por onde passam diariamente cerca de 8 mil veículos. A operação tapa-buraco, que se resume na colocação de terra, é executada por apenas 5 homens que não utilizam equipamentos de segurança.

A operação melhorou as condições de trafegabilidade, tendo em vista que havia concentrações de buracos de até meio metro de profundidade, mas o tempo útil do serviço é de no máximo 3 dias, porque não resiste ao primeiro sinal de chuva. Aliada à fumaça das queimadas, a poeira levantada principalmente pelas carretas e caminhonetes dificulta ultrapassagens e manobras, o que gera ainda mais riscos de acidentes. A sinalização na rodovia é precária, o que aumenta ainda mais os riscos de acidente e até de atropelamento dos próprios trabalhadores.

Desde janeiro sem qualquer manutenção e há 4 anos sem restauração, a BR-070 mostra uma das mais precárias condições já observadas pelos moradores da região. Há 6 meses, quem passou pelo trecho precisou ter paciência, pois a viagem que poderia ser concluída em até 2,5 horas, chegou a levar 4 horas, a uma velocidade de no máximo 20 km/hora.

A Gazeta denunciou o problema no dia 3 de julho. As placas colocadas pelo
Dnit, sinalizando o problema, continuam no local: "Cuidado, trecho com buracos" ou "Cuidado, buracos na pista".

Prejuízos - O caminhoneiro Hércules Cardoso, 50, gastou R$ 600 para trocar a bomba injetora de alimentação do diesel. "Por causa das trepidações, a mangueira furou o equipamento, que é de alumínio". Revoltado, ele diz que nos últimos três meses precisou trocar dois pneus, uma mola mestra e uma balança (ligado a suspensão do veículo), o equivalente a R$ 2 mil, metade do que costuma cobrar por um frete entre Mato Grosso e São Paulo. "Estou praticamente pagando para trabalhar".

O borracheiro Inácio Alves Pereira, 51, morador do assentamento Sadia 2, localizado no trecho crítico da rodovia, não tem tido do que reclamar. Em determinados dias não dá conta dos clientes, mais de cinco de uma vez só. A maior frequência é nos fins de semana, principalmente no período da noite. Os carros de passeio são mais prejudicados, alguns perdem os quatro pneus de uma vez só.

"Essa operação tapa-buraco é uma vergonha, estão achando que a gente é bobo? Tem a cara da política brasileira", desabafa o sitiante Edivan Silva, 48, que se sente indignado com a pouca atenção do poder público. Ele já presenciou vários acidentes e uma das mortes, que aconteceu no mês passado.

"Sou caminhoneiro há 24 anos e nunca vi nada igual, é uma vergonha demorar tanto para recuperar este trecho", criticou Sérgio Moacir Hartann, 42, que vinha da região Norte do Estado.

Asfalto danificado - Outro trecho perigoso no Estado fica na BR-163, que liga Cuiabá a Jangada (60 km), onde o tráfego chega a 10 mil veículos por dia. Os buracos agravam a situação, pois existem poucos pontos de ultrapassagem, faltam acostamentos, faixas duplas e inclusive sinalização vertical e horizontal.

Um buraco na mesma rodovia, entre Sinop e Itauba, tirou a vida de três pessoas no dia 26 de junho. Eram 13h30 quando o fato aconteceu. As condições climáticas e a visibilidade eram boas. O motorista se deparou numa curva aberta com um buraco de grandes proporções e para evitar uma capotagem, já que estava em alta velocidade, desviou para a pista contrária onde bateu de frente com o Ford Cargo. Todos morreram.

 

 

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CIDADES
24/09/2006

 

Três rodovias lideram ranking de ocorrências

 

Da Redação
Até o mês de julho, 856 pessoas ficaram feridas e 95 morreram vítimas de 1.245 acidentes nos 4,8 mil km de
rodovias federais. Só em agosto foram 27 mortes, maior registro do ano. As BRs 364, 163 e 070 são campeãs em ocorrência. Apesar dos registros estarem 10% menores que o mesmo período do ano passado, o trânsito está mais violento.

Em 2005, a segunda maior causa de ocorrências nas
estradas federais eram os buracos, item que só perdeu para a falta de atenção dos motoristas. Foram registrados 169 acidentes devido a falta de manutenção das pistas, 174 por descuido (atender celular, trocar CD, etc) do condutor e 129 por desrespeito à distância de segurança.

Apesar dos motoristas continuarem bastante desatentos, a situação mudou nos primeiros meses deste ano. Os buracos, para a PRF, hoje ocupam o último lugar do ranking, atrás da perda de controle do veículo e defeito mecânico.

Outro lado - O engenheiro Orlando Tanai, substituto temporário da superintendência regional do
Dnit, afirma que na semana que vem a operação tapa-buracos resolverá de vez a situação da BR-070. Ele diz que jogar terra foi uma medida emergencial, em razão do Festival Internacional de Pesca (FIP), realizado entre 17 e 25 de setembro em Cáceres. "Duas empresas venceram a licitação. Uma delas já fez reparos até o km 120, o restante do trecho a outra terminará". Sobre a recuperação da BR-163, no trecho Cuiabá/Jangada, ele afirma que passa por processo licitatório, a previsão das obras é apenas no ano que vem, assim que cessar o período de chuvas. (RD)

 

 

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EDITORIAL
24/09/2006

 

Rodovias são reflexo do abandono

 

Da Redação
A situação da BR-070 - que liga Cuiabá a Cáceres e está praticamente intransitável - é apenas um reflexo do abandono das
rodovias federais do país. Logo que assumiu o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva suspendeu a maioria dos contratos de recuperação e pavimentação das BRs alegando irregularidades.

Em dezembro do ano passado - período pré-eleitoral - o governo anunciou que iria investir R$ 440 milhões para recuperar, em caráter emergencial, durante 6 meses, 26.441 mil quilômetros de
rodovias federais e estaduais que se encontravam em condições precárias para o tráfego.

O
Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) colocou as "equipes nas ruas" e fez apenas o considerado urgentíssimo, ou seja, recapeou e tapou os buracos de BRs onde o asfalto tinha desaparecido e a situação estava caótica.

Evidentemente que esses "remendos" já estão se deteriorando e a situação em Mato Grosso, por exemplo, tende a piorar, já que o período das chuvas se aproxima.

Na outra campanha presidencial o então candidato Lula defendeu que no seu governo as
rodovias seriam recuperadas por meio de parcerias público-privadas, as famosas PPPs. A promessa ficou apenas no papel. Lula vai encerrar seu mandato sem iniciar nenhuma obra por meio da PPP. O primeiro projeto de 2 trechos de rodovia federal no interior da Bahia só irá a leilão em 2007. As obras propriamente ditas só deverão começar em meados do próximo ano, se tudo correr bem.

O tema "conservação das
rodovias" ficou tanto no ostracismo durante 4 anos, que na campanha deste ano o candidato à reeleição presidencial prefere não tocar no assunto que foi um grande mote da campanha de 2002.

Enquanto isso, centenas de pessoas perdem a vida todos os dias nas
estradas federais que ligam o Brasil de norte a sul, de leste a oeste. Grande parte dessas mortes aconteceu devido a má sinalização das rodovias e as péssimas condições de trafegabilidade. A malha viária do Brasil é considerada uma das piores do mundo, ainda assim não consegue entrar na lista de prioridades de quem governa este país.