1º CADERNO
27/11/2006
Governo quer crédito oficial financiando obras
O
presidente Lula preside reunião sobre infra-estrutura no Palácio do Planalto: modelo
da Nova Transnordestina pode ser aproveitado para outros projetos
Daniel
Rittner
O governo estuda repetir o modelo de financiamento da ferrovia Nova
Transnordestina para tirar da gaveta outros projetos de infra-estrutura que
hoje esbarram na falta de recursos. A intenção é usar mais as linhas oficiais
de crédito, cujo aproveitamento ainda deixa a desejar, com o objetivo de tornar
viáveis empreendimentos com participação do setor privado.
Estão na lista de projetos o prolongamento da Ferronorte em Mato Grosso, a
construção do Ferroanel de São Paulo e a variante ferroviária
Ipiranga-Guarapuava, no Paraná. O modelo também poderá ser utilizado para
impulsionar investimentos em modernização dos portos, com participação dos
arrendatários.
Essa possibilidade foi discutida, na semana passada, durante reuniões do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva com seus ministros. Na avaliação do
Palácio do Planalto, existem fontes de financiamento oficiais que hoje são mal
aproveitadas e podem servir de base para investimentos em expansão da
infra-estrutura.
O caso da Transnordestina foi citado porque a ferrovia, cujas obras começaram
em junho, está recebendo financiamento de R$ 2,2 bilhões do Fundo de
Desenvolvimento do Nordeste, R$ 823 milhões do Finor e de R$ 400 milhões do
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O empréstimo é
para a Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), vinculada à CSN, que também
investe R$ 1,05 bilhão em capital próprio.
A avaliação do governo é de que há outras linhas de crédito com sobras de
recursos. O BNDES já recebeu a incumbência de preparar estudos para o Ferroanel
de São Paulo, uma obra de quase R$ 1 bilhão para contornar a malha ferroviária
da capital paulista, dando mais agilidade ao enorme fluxo de cargas com direção
aos
portos
de Santos (SP) e Sepetiba (RJ). Nos bastidores, Lula tem demonstrado forte
preocupação com o obstáculo que a carência em infra-estrutura pode representar
aos seus sonhos de levar a economia a um crescimento de 5% ao ano no segundo
mandato.
A produção das ferrovias brasileiras deverá atingir 237,7 bilhões de TKU (tonelada
transportada por quilômetro útil) em 2006, o que representa crescimento de 7,1%
em relação ao ano passado. Desde o início da transferência das ferrovias à iniciativa privada,
em 1997, a carga transportada por esse modal mais do que dobrou e foram investidos
R$ 11,4 bilhões pelas concessionárias, de acordo com a Associação Nacional dos
Transportadores Ferroviários (ANTF).
Mas o salto de produtividade obtido no setor esbarra agora na reduzida malha
ferroviária do país e o governo quer tornar viável a expansão das linhas
existentes. Nas reuniões de infra-estrutura que liderou na semana passada, Lula
manifestou inquietação com o escoamento da produção agrícola, especialmente nas
novas fronteiras do agronegócio.
A avaliação geral é que, nos últimos anos, o alto custo do frete foi amplamente
compensado por dois outros fatores: o real desvalorizado e aumento no valor das
commodities. Para o governo, com a valorização da moeda brasileira e a relativa
estabilidade na cotação dos produtos agrícolas, o estrangulamento de portos, rodovias e ferrovias precisa ser atacado
de modo urgente.
Por isso, o presidente determinou a inclusão do asfaltamento da BR-163
(Cuiabá-Santarém) no Projeto Piloto de Investimentos (PPI) - nesse programa, os
gastos não são contabilizados como despesas e não afetam a apuração do
superávit primário. Foram alocados inicialmente R$ 108,4 milhões no PPI para
dar largada nas obras, em pelo menos quatro trechos, mais ao norte da rodovia.
Mais recursos podem entrar ao longo de 2007, sobretudo se o programa for
expandido, conforme deseja o presidente Lula.
A equipe econômica avalia o aumento do PPI dos atuais 0,2% para 0,5% -- o que
significaria um aporte adicional de R$ 6 bilhões em infra-estrutura. Mesmo sem
modificações, o Ministério dos Transportes deverá contar com R$ 3,9 bilhões em
verbas do PPI no ano que vem. A maior parte do dinheiro irá para recuperação e
duplicação de estradas. Só a duplicação da BR-101 Nordeste (de Natal até a
divisa de Sergipe com a Bahia) deverá receber algo em torno de R$ 800 milhões.
A duplicação da BR-101, entre Palhoça (SC) e Osório (RS), poderá ter R$ 523 milhões,
se for aprovada a proposta orçamentária em apreciação pelo Congresso Nacional.
Caso a equipe econômica encontre uma fórmula para ampliar o PPI, a ferrovia
Norte-Sul pode ser uma das principais beneficiadas. Na virada do ano, o governo
terá concluído as obras de expansão até Araguaína, em Tocantins. Em setembro,
houve seguidas tentativas de leiloar a subconcessão da ferrovia, hoje operada
pela Valec, uma estatal.
Foi fixado um preço mínimo de R$ 1,478 bilhão para a licitação da Norte-Sul e
apareceram três grupos interessados. O mercado via a Companhia Vale do Rio Doce
como favorita para arrematar a subconcessão. A empresa desistiu, em cima da
hora, de participar do leilão, avaliando que o valor estava excessivamente
alto. O próprio governo chegou à mesma conclusão, embora o Tribunal de Contas
da União (TCU) tenha suspendido a licitação com o argumento inverso: de que o
preço estava subestimado.
O Ministério
dos Transportes consultou o TCU sobre a elaboração de um novo edital e tentará
baixar o valor mínimo da outorga. Esses recursos irão para a Valec, que será
responsável pela extensão de 359 quilômetros da ferrovia até Palmas, enquanto a
operação ficará com a arrendatária. No entanto, o governo já trabalha com a hipótese
de que o leilão ainda demore vários meses para acontecer e de que, mesmo com
ajustes no edital, não surjam interessados. Para não perder tempo, a idéia é
alocar verbas no PPI com o objetivo de dar continuidade às obras da Norte-Sul
com recursos orçamentários.
FERNANDO ABRÚCIO
27/11/2006
A questão chave da coalizão de Lula
Fernando
Luiz Abrucio
O segundo governo Lula já tem um diferencial claro em relação ao primeiro
mandato: a construção de uma coalizão institucional com o PMDB, maior partido
do Congresso Nacional. Esta nova estratégia substitui o modelo prevalecente nos
quatro anos iniciais, baseado tanto no apoio de pequenas e médias legendas
(além de parcelas de outras agremiações), como na forte concentração de poder
político-administrativo nas mãos do PT. Não apenas a reunião oficial com a
cúpula pemedebista confirma a mudança bem sucedida de rumo por parte do
presidente da República. Tão importante quanto foi a decisão dos petistas de
apoiar em instância partidária o governo de coalizão. Estão dadas as condições
para uma governabilidade mais parecida com a da primeira gestão de FHC, por
meio da parceria PSDB-PFL, distanciando-se assim das maiorias inorgânicas e
instáveis que imperaram nos últimos oito anos.
Mas antes que o presidente comemore este êxito, é preciso pensar no dia
seguinte da formação de tão ampla e heterogênea coalizão. Daqui para diante, a
questão-chave será como manter azeitado e entrosado este complexo arranjo
partidário nos próximos quatro anos. A resposta para isso reside na constituição
de mecanismos de coordenação política e administrativa da coalizão.
Diz a sabedoria política brasileira que o primeiro passo de uma coalizão bem
sucedida relaciona-se com a distribuição de cargos. Trata-se de uma
meia-verdade. De fato, a divisão equivocada dos postos administrativos esteve
na origem das crises do primeiro governo Lula. No entanto, coalizões que se
estabelecem apenas pelo loteamento fazem com que o fisiologismo impere,
afetando negativamente as políticas públicas. E governos com mau desempenho
administrativo perdem rapidamente o apoio político-partidário no Congresso.
Além disso, a troca fisiológica fragmenta de tal forma o Executivo que aumenta
a competição entre os aliados por fatias de poder neste quebra-cabeça administrativo.
O fisiologismo sem agenda e coordenação gera problemas, no mais tardar, no meio
do mandato, mais especificamente pouco antes das eleições municipais ou logo
depois delas. Na primeira gestão petista, este processo ocorreu após o pleito
de 2004, com a cobrança da "fatura" pelos partidos médios de
centro-direita, o aumento da "fome" por cargos por parte dos
deputados petistas e, como corolário de tudo isso, o deprimente processo que
levou Severino Cavalcanti à Presidência da Câmara. As denúncias do
"Mensalão" são conseqüência dessa crise da coalizão.
PMDB tem de participar da coordenação política
O que dá base política sólida a uma coalizão é a definição da agenda e das
responsabilidades governamentais. A distribuição de cargos deve vir depois
disso e ser atrelada a estes parâmetros. Do ponto de vista das metas que o
presidente Lula pretende seguir no segundo mandato, uma parte está bem
resolvida e a outra continua muito confusa. A primeira diz respeito às
políticas de combate à desigualdade, mote eleitoral vencedor em 2006. Neste campo,
pode haver aperfeiçoamento, mas, mesmo assim, o norte nas políticas sociais já
está dado. O problema está no campo do crescimento econômico e sua
sustentabilidade, questão que o presidente tornou sua obsessão - com o número
mágico de 5% ao ano.
Cabe agora ao presidente Lula definir os mecanismos que devem ser acionados
para atingir o prometido crescimento econômico. Elaborada esta pauta, deve-se
pensar como o PMDB e os demais partidos da coalizão podem participar desse
processo como agentes com responsabilidades político-administrativas, e não
como meros executores de ordens externas a eles. O apoio parlamentar torna-se
mais previsível quando há compartilhamento de visões de mundo e
co-responsabilização pelos sucessos e fracassos do governo. Seguindo esta linha
de raciocínio, o estabelecimento dos setores pemedebistas do governo deve ser
acompanhado da definição da importância destas áreas no projeto mais geral do
Executivo Federal. Se os Transportes e a Infra-Estrutura, por exemplo,
ficarem com o PMDB, é preciso ter uma agenda que vincule seus ministros aos
deputados e senadores do partido. Caso não votem a favor do governo, estarão
contra seus próprios objetivos partidários.
Esta estratégia política exigirá também forte coordenação administrativa.
Primeiro para compatibilizar as várias políticas públicas, uma vez que elas têm
diversas confluências. É muito comum o conflito interministerial, tornando
necessário um tertius ou uma arena que dirima as brigas. Uma ministra
competente, forte e não tão identificada com a luta eleitoral, como Dilma
Rousseff, é uma boa resposta, porém insuficiente. Isto porque haverá questões
nas quais o presidente da República deverá arbitrar, tarefa que será mais
efetiva do ponto de vista político se houver maior participação do Conselho
Político nas decisões governamentais. Composto pelos líderes de todos os
partidos da coalizão, o Conselho poderá ser a instância capaz de garantir
solidez à governabilidade nos próximos quatro anos.
Só que o dia-a-dia administrativo não permite a utilização constante do
Conselho Político. Por isso, e sabendo que muitos conflitos burocráticos são de
fundo político, seria essencial ter alguém do PMDB, maior partido dessa aliança
partidária, no núcleo duro do governo. Ele poderia atuar como membro do
Executivo num cargo de coordenação política junto ao Congresso, ou então na
estrutura do Palácio do Planalto, entrando para o clube seleto dos "conselheiros"
do presidente Lula. Uma sinalização neste sentido aumentaria as chances de
maior fidelidade ao governo no Congresso Nacional.
O elemento central da coalizão está no argumento eleitoral. Convencendo os
aliados de que as políticas adotadas os favorecerão junto aos seus eleitores e,
quem sabe, que a aliança PT-PMDB de hoje poderá lhes ser positiva em 2010. Uma
aposta como essa dependerá de um grau de coordenação política e administrativa
que não houve no primeiro mandato. É este o grande desafio colocado ao
presidente Lula.
Fernando Luiz Abrucio é cientista político e professor da FGV (SP) e professor
licenciado da PUC-SP. Escreve às segundas-feiras
POLÍTICA
27/11/2006
Senado tenta destrancar pauta com votação de MPs
O
presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), marcou para amanhã sessões
deliberativas para o Senado, às 15h, e para o Congresso Nacional, às 19h. A
pauta de deliberações do Senado está trancada por duas medidas provisórias: MP
314/06 e MP 315/06. A MP 314 só tem eficácia até o próprio dia 28, mas já há
acordo de lideranças para sua aprovação.
A medida provisória liberou crédito de R$ 698,79 milhões do orçamento da União
para os Ministérios dos Transportes, do Desenvolvimento Agrário e da Integração
Nacional. O recursos foram destinados para obras em rodovias, sistemas de
irrigação em Pernambuco e compra de terras para a reforma agrária. As informações
são da Agência Senado.
Já a MP 315/06, conhecida como MP dos exportadores, permitiu a estes manter no
exterior recursos em moeda estrangeira conseguidos com a venda de produtos e de
serviços nacionais. A matéria deve gerar discussão no Plenário, por envolver
questões como a política de câmbio adotada pelo Governo Federal.
Agências reguladoras
Se a MP 315/06 também for votada, a pauta é destrancada e poderão ser
discutidas outras proposições, entre elas, o Projeto de Decreto Legislativo
435/06, que aprova a programação monetária para o quarto trimestre de 2006.
Também figuram na pauta diversas propostas de emenda à Constituição (PECs),
entre elas, a PEC 66/05, de iniciativa do senador José Jorge (PFL-PE), que
atribui ao Senado competência para indicar membros do conselho diretor ou da
diretoria das agências reguladoras.
Também poderão ser apreciadas a PEC 64/99, apresentada pelo senador Eduardo
Suplicy (PT-SP), a qual torna obrigatório o comparecimento anual do presidente
da República ao Congresso Nacional; e a PEC 57/05, que tem como
primeiro-signatário o senador Marco Maciel (PFL-PE) e que modifica o rito de
apreciação dos vetos presidenciais.
Reestruturação
Na pauta do Congresso Nacional, os principais itens a serem apreciados na
sessão serão dois créditos suplementares (PL 11/06 e PL 12/06), cuja aprovação
é necessária para que sejam sancionados os projetos de lei, aprovados em 6 de
setembro, que reestruturaram a carreira dos servidores do Judiciário e do
Ministério Público da União e concederam 15% de aumento aos servidores do
Tribunal de Contas da União.
Durante a semana, grupos de servidores desses órgãos devem circular pelo
Congresso Nacional pedindo aos parlamentares apoio para a votação das matérias.
CARTAS DOS LEITORES
27/11/2006
Trens e rios
A
imprensa deveria mostrar aos políticos e ao presidente reeleito a vantagem de
investir em ferrovias e hidrovias, assim como a realidade desses transportes mais baratos em
países europeus, onde se viaja de trem, por exemplo, de Roma a Paris,
confortavelmente.
Será que um dia pegarei um trem para ir ao Rio ou a Porto Alegre? Será que eu
verei um dia os produtos do Centro-Oeste virem pela hidrovia do Araguaia-Tocantins
e saírem pelo Porto de Barcarena (PA) para o resto do mundo? ODILSON TADEU SÁ DE
PAIVA (via Globo Online, 17/11), Belém, PA
ECONOMIA
27/11/2006
Sem investimento e no limite
Mariza
Louven
Não é somente a falta de infra-estrutura que pode impedir o país de crescer a
taxas de 5% ao ano e sem inflação, como planeja o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva. Apesar do ritmo lento da indústria este ano, diversos setores estão
utilizando sua capacidade de produção acima da média da década, segundo
levantamento realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Sem investimentos ou
ganhos de produtividade, um crescimento mais acelerado da economia pode
esbarrar no limite da oferta de alguns produtos e provocar a alta da inflação,
diz o economista Estêvão Kopschitz, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea).
— É no mínimo curioso que a indústria esteja crescendo pouco, cerca de 2% em 12
meses e menos de 3% no ano, e ao mesmo tempo esteja com utilização alta da
capacidade.
Parece que o crescimento, apesar de pequeno, é paulatino e vem ocupando a
capacidade. Mas ainda é insuficiente para levar os empresários a investirem. E
sem investimento, mesmo pequenas acelerações do crescimento podem ser
suficientes para provocar o aumento da inflação — analisa Kopschitz.
Os grandes investimentos programados são voltados, principalmente, para as
exportações. Setores mais focados no mercado interno aguardam a confirmação de
que o consumo vai mesmo deslanchar.
— As empresas primeiro compram uma máquina nova, mudam algum método de
trabalho, aumentam turnos, contratam mão-deobra temporária e até terceirizam,
antes de iniciar um investimento de maior porte, como a construção de uma
fábrica ou a ampliação de uma já existente — explica o chefe do Departamento de
Economia do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi),
Edgard Pereira.
Crédito impulsiona construção civil
Por enquanto, as importações crescem em um ritmo mais acelerado que o da
produção industrial e vêm suprindo parte do aumento do consumo no país. O
crescimento médio das importações nas três primeiras semanas de novembro,
frente ao mesmo mês do ano passado, chegou a 34%.
O setor de vestuário e calçados e o de produtos para a construção civil
(minerais não-metálicos) já estão chegando perto dos 90% de utilização de
capacidade, de acordo com o levantamento da FGV. No de calçados e confecções,
segundo o economista Aloísio Campelo, a capacidade utilizada é alta porque
houve poucos investimentos nos últimos anos. Mas indica recuperação do segmento,
que vem enfrentando forte concorrência dos produtos importados.
— Neste momento estamos trabalhando a todo vapor, com mais de 90% da
capacidade, mas não sei se essa taxa vai se manter. Se isso acontecer, num
primeiro momento, vamos terceirizar parte da produção.
Como tem importado entrando a torto e a direito, é difícil falar em aumentar
capacidade — afirma um dos donos da Malharia Mena, Luis Felipe Bastos.
A Grendene, com capacidade para produzir 176 milhões de pares de sapatos por
ano, está operando a plena capacidade. Com o consumo em alta no segundo
semestre, a empresa optou por realocar parte de sua produção do Ceará para
Teixeira de Freitas, no Sul da Bahia, onde será mais competitiva.
— Vamos produzir 9 milhões de pares por ano e economizar dois mil quilômetros
de frete para atender ao mercado do Sudeste — informa a gerente de Relações com
Investidores da Grendene, Doris Wilhelm.
A expansão do crédito e a queda dos juros também vêm impulsionando a construção
civil. Segundo Campelo, esse setor vem se recuperando, com boas expectativas de
aumento dos investimentos. O principal entrave é o saneamento, afirma Fernando
Puga, assessor da Presidência do BNDES.
— A construção em massa de moradias populares esbarra na ampliação das redes de
saneamento, que dependem de mudanças na legislação em tramitação no Congresso —
diz Puga.
Siderurgia pretende dobrar produção
Já os setores exportadores, principalmente os de commodities como o aço, têm
grandes investimentos programados, analisa o gerente de análises da Modal
Asset, Eduardo Roche. A capacidade está acima da média da década, mas Campelo
ressalta que uma característica desses setores é trabalhar a pleno vapor.
De acordo com levantamento feito pelo BNDES, a siderurgia planeja dobrar sua
produção, de 36 milhões para 72 milhões de toneladas de aço até 2012, informa
Puga. Um exemplo é a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que produz 5,6
milhões de toneladas de aço por ano e planeja triplicar sua capacidade.
O projeto mais adiantado é o de instalação de uma usina em Itaguaí, no Rio, com
capacidade para produzir 4,5 milhões de toneladas de aço em forma de placas,
totalmente para atender ao mercado externo.
— Estamos operando a plena capacidade, ou seja, a 100% — diz o diretor de
Relações com o Mercado da CSN, José Marcos Treiger.
Exportação esbarra nos transportes
O setor de papel e celulose também tem investimentos que elevarão a capacidade
de 6,8 milhões para 8 milhões de toneladas por ano até 2010, segundo o BNDES. A
Suzano Papel e Celulose, por exemplo, está investindo U$ 1,3 bilhão para
triplicar, a partir do fim do ano que vem, a capacidade de produzir celulose —
matéria-prima para fabricar papel — em sua fábrica em Mucuri, Sul da Bahia.
De acordo com o diretor do projeto, Hernesto Pousada, o problema é que os
equipamentos chegam pelo Porto de Salvador, a 900 quilômetros da fábrica, e são
transportados por rodovias em péssimo estado de conservação.
A dificuldade para solucionar o problema de como levar o produto que será
exportado até o porto também atrasou em cerca de um ano o início do projeto.
— Optamos por utilizar um porto privado, da Aracruz e da Cenibra, em Vitória —
informa Pousada.
PAINEL DO LEITOR
27/11/2006
Feudo
"São
Paulo está virando um feudo em pleno século 21: seus moradores só podem sair
daqui pagando. Os senhores feudais não permitem que a gente viaje sem pagar
para eles. Só restam, por enquanto, as rodovias Fernão Dias e Régis Bittencourt,
federais, as únicas que nos permitem sair daqui sem pagar. Mas o governo Lula,
que fez sua última campanha eleitoral criticando o privatismo dos tucanos,
anuncia que vai privatizar as duas rodovias. E quem mora em São Paulo só poderá
sair daqui, em qualquer direção, pagando pedágio. Claro, temos a imprensa para
chiar, mas ela é privatista também e nem liga para essa contradição de
Lula."
MOUZAR BENEDITO (São Paulo, SP)
ECONOMIA & NEGÓCIOS
27/11/2006
País disputa recursos com obras de todo o mundo
Setor
de transporte terá de competir com programa americano de privatização de
rodovias
Só
o setor de infra-estrutura deverá exigir investimentos anuais de R$ 87,7
bilhões entre 2007 e 2010. Mas atrair capital para esses projetos no Brasil não
será uma tarefa fácil. Isso porque, apesar da abundância de dinheiro no mercado
mundial, há uma infinidade de projetos espalhados pelo mundo, afirma o
diretor-presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Moacyr
Servilha Duarte.
Segundo ele, o setor de transportes terá de disputar investimentos com os Estados
Unidos, que estão com um programa de transferência de rodovias para a iniciativa
privada. A expectativa é que no ano que vem o Brasil faça, enfim, o leilão de
concessão de sete trechos de estradas federais. “Mas por causa de tanta
insegurança jurídica é possível que muitos investidores estrangeiros prefiram
os projetos americanos aos nossos.”
Ele afirma que o histórico brasileiro não ajuda muito, referindo-se às
interferências do governador do Paraná, Roberto Requião, que abriu fogo contra
os pedágios. Além disso, em Florianópolis (SC), depois que a empresa investiu,
o governo isentou os moradores do norte da ilha do pagamento do pedágio. No Rio
Grande do Sul também houve problemas em relação aos reajustes das tarifas. “Não
adianta ter uma estrutura de regulamentação se o administrativo não segue. Não
adianta ter contratos claros, se o político quer inovar.”
O leilão de concessões de rodovias foi desenhado ainda no governo de Fernando
Henrique Cardoso. A previsão era realizar a privatização em meados de 2003, mas
o governo Lula decidiu redesenhar o programa. Quando estava tudo pronto, o
Tribunal de Contas da União (TCU) exigiu mudanças no cálculo dos pedágios feito
pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT). O processo somente
foi liberado no início deste mês e a previsão é de que o leilão ocorra no
primeiro semestre de 2007.
Na avaliação do presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e
Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, a sobreposição de funções entre
executivo, reguladores e legislativo é um dos principais fatores que emperram
os investimentos no País. A briga de poder entre os órgãos atrasa a definição
de projetos e retarda o início de obras importantes para o crescimento do País.
“Foi o que aconteceu com o leilão de concessão de rodovias.”
Na avaliação dos especialistas, a impressão é de que o capital estrangeiro não
é bem vindo no País. “A população acha que eles vêm para cá para explorar”,
avalia o economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Samuel Pessoa. A mesma
opinião tem o presidente do grupo Orsa, Sergio Amoroso. “Aqui no Brasil parece
que investidor é inimigo.”
O presidente da Suez Energy no Brasil, Maurício Bähr, lembra que o resultado
dos entraves é o atraso da entrada em operação de obras e o aumento do custo
dos projetos, que no caso da infra-estrutura vai parar no bolso do consumidor.
POLÍTICA
27/11/2006
Lula acelera acordos para garantir aliados
Além
das reuniões que já estavam previstas com o PDT e o PV, o presidente vai se
encontrar com PP, que enfrenta disputa interna
Helayne
Boaventura
Da equipe do Correio
As conversas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com dirigentes dos
partidos aliados terão um sabor especial esta semana. Depois de arrancar do PT
uma declaração pública de que aceita abrir espaço para os demais integrantes da
coalizão política, Lula tem ainda mais o que oferecer e terá argumento forte
para cobrar responsabilidade das siglas que participarem do segundo mandato.
Nos próximos dias, o presidente irá se reunir com PDT, PV e PP.
Lula decidiu adotar um calendário dilatado para compor o próximo governo. Até o
início de dezembro, pretende se encontrar com a direção de todos os partidos
que podem fazer parte da futura base aliada. As conversas começaram com os
partidos que têm situação interna mais delicada. Foi assim com o PMDB e o PTB
na semana passada, cujos presidentes nacionais foram ou são opositores do
governo. A Executiva do PMDB se reúne amanhã para discutir o apoio ao governo e
responder se ofertará ao presidente pelo menos 80% da sigla.
Esta semana, o presidente continua a tentar desatar os nós dos partidos que
deseja ter na base. Lula deverá se encontrar com o presidente do PP, Nélio
Dias, e com o líder do partido na Câmara, Mário Negromonte (BA). O chefe de
gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, fez contatos na semana passada com
os dirigentes da sigla e com o ministro das Cidades, Márcio Fortes, para
agendar um encontro com Lula. Apesar de ter chegado a falar que o partido exigiria
mais duas pastas — Transportes e Integração Nacional —, Negromonte mudou o tom
do discurso. Diz que não cobrará espaços na reunião com Lula. “Temos primeiro
de ter uma conversa programática, sobre a agenda do governo”, justifica o líder
do PP.
Problema interno
Para ter força suficiente para exigir mais espaço, o PP terá antes de resolver
a disputa interna pelo comando da legenda. O nome do senador eleito Francisco
Dornelles (RJ) é cotado para ocupar a presidência, que ainda é controlada pelo
grupo do deputado cassado Pedro Corrêa. Depois da aproximação do ex-governador
catarinense Esperidião Amin com Lula no segundo turno da eleição presidencial,
o nome dele também é lembrado pelos oposicionistas para ocupar um ministério.
Negromonte expõe, porém, a divisão interna ao descartar a hipótese. “Amin é um
grande quadro. Mas quem vai fazer o ministro é a bancada”, rejeita.
O presidente também deverá convidar formalmente amanhã o presidente do PDT,
Carlos Lupi, para carregar a legenda de volta à base de sustentação do governo.
Lupi avisa que sua postura será ouvir o que Lula tem a dizer. “A proposta é o
presidente quem vai fazer”, justifica.
O pedetista será acompanhado do secretário-geral do partido, Manoel Dias, e dos
líderes na Câmara, Miro Teixeira (RJ), e no Senado, Osmar Dias (PR). Depois de
ouvir a proposta governista, Lupi convocará a Executiva Nacional para decidir o
futuro da legenda. Enfrentará, porém, resistências internas à adesão. O senador
Cristovam Buarque (DF), por exemplo, faz questão de deixar pública sua posição
contrária à idéia.
O presidente do PDT diz que, se a Executiva Nacional decidir integrar a base
aliada, o partido marchará unido. “Somos um partido democrático, temos
divergências internas. Mas a partir do momento em que o partido decide, todos
têm de acompanhar”, avisa, se referindo à posição de Cristovam. O senador já
avisou que não pretende deixar a sigla.
Os verdes
Já o PV faz o caminho de volta esta semana. A direção do partido deve ter um
novo encontro com o presidente Lula para dar a resposta sobre as consultas
internas. Na quinta-feira passada, Lula fez a oferta ao partido de participar
da coalizão política. O PV fez o mesmo caminho do PDT no primeiro mandato e
também tem divergências internas sobre a participação no governo. Uma das mais
expressivas é a do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ).
O presidente está decidido, porém, a ter o partido na base aliada, mesmo que a
legenda não integre o conselho político. A interlocução poderá ser feita com a
bancada na Câmara. É o mesmo modelo utilizado para contar com a adesão do PTB,
que é dirigido por Roberto Jefferson, forte opositor do governo.
ECONOMIA
27/11/2006
O custo das alianças
Lula
sonha com segundo mandato de colalizão nacional, mas a conta apresentada pelos
seus novos aliados será bilionária
Por
Octávio costa
Depois de uma eleição tão tensa, o aceno político de Lula aos tucanos, flagrado
na carona que o presidente deu ao senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) após o
enterro do ex-senador Ramez Tebet, causou uma certa surpresa. Mais
surpreendente, porém, foi o comentário do tucano logo depois do vôo, no sábado
18. “A oferta de Lula faria corar as prostitutas de Amsterdã”, disse ele. Ainda
que seja uma frase de efeito, ela expõe o que há por trás das costuras
políticas. Lula quer um governo de coalizão nacional. E parece disposto a
repartir o poder. Entenda-se bem: as ofertas incluem cargos, diretorias em
estatais e ministérios. O que dizer de uma Petrobras, com R$ 30 bilhões para
gastar? Ou então da Eletrobrás, que gere investimentos anuais de R$ 5 bilhões?
Qual o peso de um Ministério da Saúde, com orçamento de R$ 40 bilhões? Isso sem
falar nos milhares de cargos comissionados, com salários médios de R$ 10 mil. O
custo da coalizão é alto, mas Lula está confiante. Aos aliados mais íntimos ele
já revelou sua estratégia. “Vou jogar com o calendário, porque o tempo corre a
meu favor.” A tese é simples. Num país onde o governo arrecada quase 40% do
PIB, os apoios virão por gravidade.
Oficialmente, já participam da coalizão governista o PT, o PSB e o PCdoB. Mas
um aliado de peso, o PMDB, praticamente selou sua entrada no barco na
quarta-feira 22, após um encontro de Lula com o presidente do partido, Michel
Temer. Lula pôs na mesa uma folha de papel com o pomposo título “Agenda Mínima
de Coalizão”. Entre os sete pontos, alguns temas óbvios como a reforma
política, a reforma tributária e o compromisso com o crescimento de 5%. Temer
gostou do que viu, falou em “aliança programática” e confirmou, sem delongas, a
participação do PMDB no governo. Mas o que está em jogo, evidentemente, são
cargos e mais cargos. E isso Lula terá de negociar com três caciques do
partido: o senador José Sarney, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o
deputado federal eleito Jader Barbalho. Todos com apetite pantagruélico. O PMDB
hoje comanda três ministérios (Comunicações, Minas e Energia e Saúde), e quer
estender os domínios a mais três: Educação, Integração Nacional e Transportes.
Um dos feudos de Jader Barbalho é a Eletronorte, cujo orçamento vai a R$ 1
bilhão. Jader pretende mantê-lo, e está de olho também na recriação da Sudam,
histórico sorvedouro de verbas públicas. José Sarney mantém sob sua órbita o
Ministério de Minas e Energia e a Eletrobrás. Mas ele quer mais. Sarney
argumenta que, se o Ministério de Minas e Energia está na cota do PMDB, a
presidência da Petrobras deveria vir junto. Ele cobra também a presença da
filha, Roseana, no futuro ministério, o que deverá se confirmar.
Decidido a não repetir os erros do mensalão, o presidente já decidiu que a
partilha efetiva dos cargos deverá ser adiada até a posse do Congresso, em
fevereiro. O ideal é que as negociações só sejam concluídas depois de conhecidos
os nomes dos novos líderes de bancadas e dos presidentes das duas Casas – do
contrário, podem perder o prazo de validade. “Meu próprio partido, o PT, está
sendo comandado por um presidente interino”, admitiu Lula, referindo-se a Marco
Aurélio Garcia. Mas, mesmo em compasso de espera, as conversas avançam. Nesta
semana, Lula foi a Mato Grosso agradecer o apoio do governador Blairo Maggi.
Este poderá escolher o futuro ministro da Agricultura e ainda discute a ampla
renegociação das dívidas agrícolas. É uma conta que não sairá por menos de R$ 5
bilhões. Disposto a fazer o que for necessário para governar em mar tranqüilo,
Lula espera dobrar até o PSDB. Quando desceu do “Sucatinha”, após conversar com
Arthur Virgílio sobre as biografias de Josef Stálin e Lênin, Lula reuniu-se com
o senador tucano na Base Aérea de Brasília por 20 minutos. E pediu a ele que convença
Tasso Jereissatti e Fernando Henrique Cardoso a aceitar o diálogo com o
Planalto. Antes do tête-à-tête, na mesa de reuniões do jato, o presidente fez
questão de explicar aos convidados de bordo por que passou a considerar as
alianças políticas cruciais para o êxito de seu governo. “Quando eu soube da
trapalhada do dossiê Vedoin, tive vontade de me matar. Nunca mais serei refém
do PT”, confessou o presidente, para espanto dos senadores presentes.
EDITORIAL
27/11/2006
Salvar as rodovias
Enquanto
se informa que até março deverão ser licitados sete trechos de rodovias federais cuja privatização
foi autorizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), compreendendo o total de
2.600 quilômetros e incluindo as rodovias Fernão Dias (São Paulo-Belo Horizonte)
e Régis Bittencourt (São Paulo-Curitiba), anuncia-se que novos estudos dos
órgãos técnicos e agências reguladoras governamentais , a serem concluídos no
ano que vem, provavelmente ainda no primeiro semestre, estão em andamento e
abrangem trechos que somam 12 mil quilômetros da malha rodoviária federal.
Pretende-se que parte desses trechos venha a ser administrada pela iniciativa
privada, por meio de concessão, e parte através de Parceria Público-Privada
(PPP). A propósito, explicou o diretor-geral da Agência Nacional de
Transportes Terrestres (ANTT), José Alexandre Resende, ser obrigação da agência reguladora
realizar os estudos para a concessão de rodovias. Já a decisão política de promover ou
não a privatização ou a PPP é, como lembra, do Governo federal. No caso das
concessões, o processo durará dois anos e será executado por etapas. A
recuperação das estradas federais ocupa, como se sabe, na atual fase, lugar de
destaque na agenda do Governo, tendo em vista, antes de tudo, que a superação
dos gargalos da infra-estrutura de transportes é uma das pré-condições para a
aceleração do ritmo de desenvolvimento, posta entre os compromissos básicos
assumidos para o segundo mandato presidencial. Nesse sentido, a questão
sobressai por sua prioridade inconteste na atual e próximas etapas da vida
nacional, à luz das conseqüências e desafios a ela em grau maior ou menor
associados, a par de implicações econômicas e sociais aferíveis em relação à
própria estratégia de desenvolvimento. A esse respeito, aliás, relatório
aprovado pelo Tribunal de Contas da União e que vem de ser divulgado, arrola
fatos, alinha conclusões e expõe uma situação que não pode nem deve perdurar,
por atentatória ao próprio interesse nacional. De acordo com o referido
relatório, a má conservação da malha rodoviária do País, nos últimos 30 anos,
causou, ao patrimônio público, prejuízo da ordem de US$ 200 bilhões. Nesse
contexto, os fatores limitantes do desenvolvimento econômico, a elevação do
custo operacional dos veículos, o aumento do índice de acidentes e o acréscimo
dos fretes e passagens rodoviárias figuram entre os pontos negativos gerados
pelo mau estado das rodovias nacionais. Entre as causas do prejuízo, ao nível em que
foi estimado, são apontadas as dificuldades de ordem administrativa, gerencial
e institucional, bem como o financiamento insuficiente. O relatório contém
ainda uma avaliação crítica sobre a queda dos investimentos no modal
rodoviário, a ponto, segundo o TCU, de nas décadas de 60 e 70 ascenderem tais
investimentos a cerca de 20% do Orçamento Geral da União, delineando-se, ao
invés, em anos recentes, por força da limitação de recursos destinados à
construção e manutenção de rodovias, um quadro que pode ser detectado pelos dados
do próprio Dnit, segundo os quais 45% da malha rodoviária brasileira se encontram
em mau estado, 35% em estado regular e apenas 18% em bom estado. Eis o desafio
diante do qual o TCU propõe ao Congresso Nacional, entre outras iniciativas,
aprovação de lei complementar estabelecendo um limite mínimo dos recursos
necessários à execução dos programas relativos à conservação e restauração da
malha rodoviária. Tarefa que, face às revelações do documento e conclusões nele
contidas, assume características de uma obra de defesa e até de salvação de
parte apreciável do patrimônio público nacional.
POLÍTICA NACIONAL
27/11/2006
Lula muda o critério para reforma do seu ministério
Texto:
Gerson Camarotti Ilimar Franco/Foto: Arquivo JC
BRASÍLIA, (AG) - Depois de uma forte pressão dos aliados, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva decidiu mudar um critério fundamental na reforma
ministerial. Diferentemente do primeiro mandato, em que o PT controlou praticamente
todos os ministérios, ainda que ocupando cargos menos importantes, Lula já
sinalizou que vai entregar aos partidos da base governista ministérios com a
porteira fechada — o que, no jargão da política, significa que o aliado terá o
direito de indicar os ministros e os principais titulares dos cargos.
Para viabilizar o novo estilo de gestão do governo, Lula pediu que fosse feito
um mapeamento da participação dos partidos aliados no governo. Os ministros
Tarso Genro (Relações Institucionais), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Paulo
Bernardo (Planejamento) receberam a tarefa de fazer a lista das nomeações
políticas, e dos padrinhos dos detentores de cargos federais nos estados, no
segundo escalão e nas estatais.
Os partidos aliados começaram a cobrar esse novo critério de distribuição de
cargos, que é chamado também de verticalização, antes mesmo do fim do segundo
turno da eleição presidencial. O PMDB foi o primeiro a reivindicar a
verticalização. Nos bastidores, os principais líderes do partido disseram que
só aceitam ministérios totalmente livres, sem a interferência do PT. O exemplo
também começou a ser seguido por PL, PP e PTB.
— Num governo de coalizão, as forças políticas se juntam para governar o país.
Os partidos são responsáveis pelo governo e pela gestão de setores da
administração — disse o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), que começa
quarta-feira a discutir institucionalmente com Lula o governo de coalizão.
"Rainhas"
Os aliados lembram que no primeiro governo Lula, os ministros dos partidos
aliados funcionaram como rainhas da Inglaterra, já que o PT indicava o
secretário-executivo e os outros principais cargos da pasta. Lula, em reuniões
reservadas, reconhece que errou e tem dito que, muitas vezes, o ministro nem
conhecia direito o secretário-executivo.
O governador eleito da Bahia, Jaques Wagner (PT), diz que adotará a
verticalização no estado:
— Na Bahia, eu vou verticalizar o núcleo central de cada secretaria. Acho que
um partido tem que ter controle sobre uma pasta. Essa idéia de intercalar
diferentes concepções não funciona. E você acaba fazendo um Frankenstein.
Agora, não acho que todos os cargos deste ministério nos estados têm de ser
obrigatoriamente verticalizados.
Lula antecipou ao líder do PL, deputado Luciano Castro (RR), que o partido
receberá um ministério sem petistas.
— O presidente quer ter uma relação mais madura com os partidos da base, e não
como antes, quando o ministério era uma colcha de retalhos: o partido tinha
ministro e o PT mandava embaixo — disse Castro, referindo-se ao Ministério dos
Transportes.
O PL comandou essa pasta com Anderson Adauto e Alfredo Nascimento e,
atualmente, indica Paulo Sérgio Passos. Mas num primeiro momento, houve conflitos,
pois o PT pôs filiados em postos estratégicos.
— A imagem do Ministério dos Transportes mudou. O Lula sabe disso. Quando o
secretário-executivo era do PT, havia muita confusão. Depois, ficou tudo em
harmonia — diz Castro.
PT nunca esteve contido como agora
BRASÍLIA, (AG) - Desde que chegou ao poder, em 2003, o PT nunca esteve tão
contido como agora, às vésperas de se iniciar o segundo mandato do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. Os petistas, que sempre se apresentaram como
senhores de seu protagonismo, estão pisando em ovos e não sabem qual o poder
que terão nos próximos quatro anos de governo. Querem muito, mas sabem que não
vão levar tudo o que querem.
Há quatro anos, quadros petistas de todo o país freqüentavam o topo da bolsa de
apostas para a formação do Ministério. Hoje são poucas as estrelas do PT que
podem sonhar com um cargo no primeiro escalão do segundo mandato de Lula: a
ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, o ex-governador do Acre Jorge Viana e o
ex-presidente da Petrobras José Eduardo Dutra.
Atônitos, os petistas vêem os aliados cobrar a despetização do governo e a
formação de uma equipe que não apenas amplie o espaço dos demais partidos
governistas, principalmente o PMDB, mas também aumente a presença de
personalidades sem filiação partidária. Os petistas chegaram a ter 18 dos 34
ministros do governo Lula e hoje detém 16 ministérios, incluindo as secretarias
nacionais.
Mesmo com toda esta supremacia, os petistas reclamam e alegam que têm pouco
presença naquela parte do governo que tem poder real: os ministérios que
executam os maiores orçamentos e concentram o grosso das emendas parlamentares.
— O PT, pelo que os deputados da bancada afirmam, está sem instrumentos de ação
política — relata o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP).
Os petistas argumentam ainda que eles não comandam nenhum dos ministérios da
área de infra-estrutura, como o dos Transportes e o de Minas e Energia, nem
estão à frente dos ministérios da Saúde, Integração Nacional e das Cidades —
pastas cobiçadas pela força que tem nos estados.
Pouco
Eles dizem também que para o partido mais votado do país e que tem a segunda
bancada na Câmara é muito pouco ter apenas dois ministérios de ponta, do ponto
de vista da ação política na sociedade: Educação e Desenvolvimento Social.
Para muitos petistas, o partido tem quantidade, ministérios periféricos, mas
não tem qualidade. Apesar do mal-estar, nada indica que a situação irá mudar e
ainda há dirigentes petistas que não vêem tanta necessidade de ampliar a
presença do PT no governo.
— Não concordo com estas queixas. Nós temos os postos estratégicos do governo.
Não temos Cidades, mas estamos na Caixa Econômica Federal, que é quem comanda.
Temos os principais postos da área econômica e o mais estratégico deles: o
BNDES. E quem bota o governo para funcionar é a ministra Dilma Roussef. Não sei
do que se queixam — afirma a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC).
Mas não é isso o que se vê entre a maioria de deputados e senadores que ficam
profundamente irritados quando alguém afirma que o presidente Lula é maior que
o PT ou que ele se reelegeu a despeito dos erros cometidos pelo partido. O
secretário de Relações Internacionais do partido, Valter Pomar, é um dos que
mais combatem os que fazem esta distinção.
Inconformismo
Pomar diz que Lula é PT e PT é Lula, e que eles não podem ser separados. Os
petistas estão inconformados, por exemplo, com a preferência do presidente Lula
pela reeleição do atual presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Eles têm
dificuldade até mesmo para aceitar que o PMDB, por ser a maior bancada, tenha
preferência sobre as ambições petistas.
— A nossa preocupação é a de que o partido não saia diminuído nesse processo —
diz a vice-presidente do PT, deputada Maria do Rosário (RS).
Os petistas que participam da coordenação do governo têm uma visão diferente.
Eles foram convencidos da idéia de que o partido tem mesmo que compartilhar o
governo. Para estes, o PT deveria concentrar seus esforços em cima daquilo que
será a prioridade do segundo mandato: crescimento com distribuição de renda e
educação de qualidade.
Nesta visão, o PT deveria assegurar o comando dos Ministérios da Fazenda e do
Planejamento, e as pastas do Desenvolvimento Social e da Educação. Por isso, os
principais líderes formais e informais do partido apostam na permanência dos
ministros Patrus Ananias e Fernando Haddad.
— O presidente quer misturar bem. Integração Nacional, Transportes, Cidades,
não vamos ficar com nenhum destes — afirma, conformada, Ideli.
Regime já provoca pânico aos petistas
BRASÍLIA, (AG) - O pânico toma conta dos petistas toda vez que os aliados falam
em administrar ministérios em regime de "porteira fechada", pelo qual
o partido do ministro fica com todos os cargos de segundo escalão e nos
estados. No primeiro mandato, o PT, mesmo representando 20% da Câmara, detinha
quase 70% destes cargos. Esta realidade vai mudar, o presidente Lula garantiu
que os aliados terão mais espaço e mais poder no segundo mandato.
Lula já pediu uma lista dos ocupantes de todos os cargos de interesse político,
em Brasília e nos estados — cerca de 600 — aos ministros Tarso Genro (Relações
Institucionais), Dilma Roussef ( Casa Civil), e Paulo Bernardo (Planejamento).
— Vamos deixar o presidente à vontade. Ele sabe a importância estratégica do
PT. Nós precisamos de um Ministério e de um governo que consolide nosso bloco
político e nosso projeto de mudanças tendo em vista a eleição de 2010 — diz o
líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS), no papel de bombeiro.
Apesar dessa posição, os petistas consideram que haverá muita resistência à
partilha. Nos últimos quatro anos a maioria destes cargos foram repartidos pelo
PT e suas diversas tendências, independentemente da representação parlamentar.